19 de abril de 2011

A vida não tem copyright



A cada calendário novo que eu ganho e a cada folhinha arrancada, um sentimento constante vem se confirmando: a vida parece muitas vezes com um jogo de carimbos. A maioria de nós ganhou uma caixa contendo carimbos mais ou menos similares e algumas cores várias de tintas. Aí a gente vai tentando fazer as combinações que pareçam mais agradáveis, mais bonitas do que a do coleguinha do lado, ou alguns vão tentando dar uma copiada no layout do vizinho. Tem os que arriscam composições mais ousadas, neo-barrocas ou minimalistas, de acordo com o gosto ou filosofia pessoal.

Mas é um jogo de carimbos. No final, as formas são praticamente as mesmas. Isso não quer dizer que as vidas são iguais, não precisa ser um grande observador pra sacar que não são. Mas lidamos com angustias, questões, equações muito parecidas. Dificilmente se é original, tanto no sofrer quanto no regozijo.

A prova disso são as dores de cotovelo. Qualquer um que tenha terminado um dia um namorico qualquer percebe-se fazer parte de uma grande galeria temática. As canções se encaixam, Jorge Drexler escreveu pensando em você - é óbvio; Alain de Botton escreveu seus Ensaios de Amor baseado na sua história - faz todo sentido; os poemas de Pablo Neruda tiveram seu coração despedaçado como fonte inspiradora.

São os mesmos carimbos, e servem pra representar "n" vidas. Todas igualmente originais.

*projeto CREO - geometric typeface stamping device, por Charissa Rais.

14 de abril de 2011

Caraminholando



Uma das coisas mais gostosas, pelo menos para mim, é acordar num daqueles dias que parecem ter sido inflados por mil ideias enquanto simplesmente eu flutuava entre o lençol da cama e a coberta. Despertar com a cabeça a mil, com o frio na barriga de saber que aquele dia é uma página em branco, um novo documento, uma nova postagem, algo novo em folha, pronto a ser colorido e preenchido com nossas melhores tintas.

Um sentimento muito parecido de quando eu era criança: era inconcebível chegar ao final de um dia sem ter inventado uma brincadeira, feito uma dobradura num papel colorido ou rabiscado um desenho novo.

Cresci e fui constatando que não acordo com a cabeça a mil todos os dias. E que tem dias que não faço nada que será um dos meus melhores desenhos nem escrevo minhas mais inspiradoras palavras. E tem dias que nada escrevo e que nada rabisco. Não quero dizer que esses são dias ruins. Aprendi a dizer para aquela inquietude infantil que preciso respeitar meu ritmo. Há dias que a alma só olha, observa, contempla. Há dias, daqueles burbulhantes, que a alma quer imprimir o que ela tem visto e guardado.

Temos ciclos. Horas de salvar os rascunhos para mais tarde. E horas de publicar.

*ilustração do coletivo francês LesJeanClode.

29 de março de 2011

Congelamentos vivos



Como as coisas são arquivadas na minha memória? Relembro de longa-metragens, curtíssimas cenas vividas, cheiros, trechos de áudio, álbuns inteiros - lado A e B, remixes de situações diferentes, fragmentos visuais, roteiros que já não sei mais se são realidades ou sonhos passados - e que diferença isso faz? Lembro de fatos, que não sei mais se lembro porque vi as fotos ou porque já lembrava antes. De gostos e movimentos. De toques e de cores.

E o calendário? Não existe mais no meu sistema. A maioria dos arquivos não têm mais data. Apenas um vestígio temporal medido pela saudade, mas que não serve em nada para datar os acontecimentos. Só para perceber o quão querido foi determinado momento, pessoa ou eu mesma.

*fotografia animada de Sanchez e Kitahara.
Pra não dizer que não me esforço



Às vezes finjo ser normal, mas aí fica chato demais e volto a ser eu mesmo.

daqui.

24 de março de 2011

Quando a vida está de mudança



Dividir não é fácil. Dividir um espaço, uma mesa de trabalho, um cobertor, uma conexão de rede, um controle remoto, as contas, as vezes de pôr o lixo pra fora, as responsabilidades. Dividir uma casa então, é gerir, em regime socialista, um microcosmos. São duas (ou mais) forças criadoras/organizadoras/destruidoras que têm de fazer um verdadeiro balé espacial/emocional/espiritual para que as supercordas da convivência não se rompam ou se afrouxem. Parece tão complexo como uma tese de física ou ciências políticas ou teologia.

Nesta semana meu microcosmos está passando por mudanças. Depois de ser dividida por quase 5 anos pelas mesmas duas amigas, a casa se reconfigura. Um universo que se divide, duas vidas que reorganizam seus espaços. Os laços da amizade continuam os mesmos, só que agora têm as pontas bem mais compridas, já que não habitarão mais no mesmo CEP.

Com uma misturinha de tristeza e gratidão que relembro das pequeninas e valiosas lições que aprendi com a Lívia, a flatmate mais querida que tive.

• aprendi que vale a pena sujar as unhas de terra e cuidar de pequenos seres de folhas verdes que se desenvolvem todos os dias e se contentam com coisas tão simples como luz, água e um pouquinho de atenção;
• aprendi a usar uma cafeteira italiana e diferenciar um café espresso bem tirado de uma farsa;
• aprendi a lavar roupas na máquina de lavar (até então eu teimava em usar a técnica 100% "artesanal" de lavagem);
• ela me ensinou a fazer uma sopa de ervilha incrível;
• aprendi que, às vezes, a louça na pia pode esperar;
• aprendi como agradar as visitas com café fresco, queijo e doces sobre a mesa;
• aprendi que terminar um namoro não era tarefa fácil, pois ela já tinha passado por isso antes de mim;
• aprendi que a gente sobrevive, e volta a viver, e volta a brilhar;
• aprendi que nenhum romance do mundo pode substituir as verdadeiras amizades, que essas coisas precisam coexistir em equilíbrio;
• aprendi a ouvir mais e a orar mais pelos amigos;
• aprendi a amansar a voz e aproveitar os momentos de solitude;
• aprendi a ser mais amiga, a ser mais cristã e não ter vergonha de dizer "eu te amo".

A Lívia sai. Eu fico com a casa e com os vasinhos de plantas e os quadros das bonequinhas peruanas. Só não sei se ela sabe que, na verdade, ela está deixando muito, mas muito mais.

Obrigada.

23 de março de 2011

Por uma vida mais distraída



Recebi esse texto de uma amiga que fiz num antigo local de trabalho. Agora que ela está tão longe, em outro continente, vamos, estranhamente, ficando um pouquinho mais próximas. Isso é muito bom. Estar perto, muitas vezes, não significa estar acessível ao coração.

Por não estarmos distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos. • Clarice Lispector

*fotocomposição de Dan Mountford.

17 de março de 2011

E o amanhã?



Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. • Tiago, no livro sagrado, capítulo 4:14.

No fundo, somos todos meteorologistas. Tentamos prever, explicar, preparar-nos, sair de casa com o guarda-chuva. Mas nunca acertamos 100%. E nunca estamos devidamente preparados para os chacoalhões. Para o mundo que treme. Para a vida que muda.

*Into the unkown, fotografia de Thomas Hawk.

15 de março de 2011

Design de embalagem
(um pensamento sobre meu trabalho)



Quando conseguimos unir a necessidade de se transportar/conservar um produto, com a informação adequada, o material certo, o processo sustentável e a beleza desejada.

Ou seja, estamos há anos e anos tentando imitar a maestria da natureza!

*foto do blog Kiss My Spatula.

12 de março de 2011

Quantas estrelas você dá?



Lendo os ensaios sobre viagens reunidos no livro A arte de viajar, do escritor suíço Alain de Botton, pela primeira vez me dei conta sobre como o guias de viagem são tendenciosos. Tão escancarado, mas eu nunca tinha parado pra pensar que toda vez que folheio um guia na fase de planejamento de uma viagem qualquer, já vou esperando encontrar no meu destino que o lugar marcado com 5 estrelinhas vai ser um dos ápices da viagem e, também, automaticamente reduzo minhas expectativas pro dia que programei conhecer alguns monumentos assinalados, coitados, com 2 ou 3 míseras estrelas.

E qualquer um que tenha visitado um lugar novo, sabe que nem sempre nossas impressões seguem o programa. Não sou mochileira nem tenho muita vocação de exploradora, mas nos poucos lugares do mundo que conheci até hoje, percebi que se estou aberta, consigo ser capturada por coisas que o guia Michelin não contou pra ninguém: um coral de freiras numa igreja, um degrau sob uma sombra de árvore com uma vista incrível da cidade, um vendedor de jornal muito gentil, um banquinho no jardim do hotel, um biscoito delicioso num café, uma pintura linda em alguma parede fora dos museus, etc.

Vou dar menos créditos as estrelinhas que marcaram por aí. E começar a pontuar os meus hotspots imperdíveis do mundo.

*estrelinhas e garranchos são meus.

8 de março de 2011

Marcha da quarta-feira de cinzas



Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade... • Vinicius de Morais


*"Tristeza do arlequim", ilustração minha.

2 de março de 2011

Sorte ou azar?



Guarda-chuva aberto dentro de casa, espelho quebrado, gato preto, passar embaixo da escada, chinelo de virado pra baixo, tesoura aberta, pão que cai no chão, número 13, mês de agosto, entrar com o pé esquerdo, vela que se apaga, cadeira de balanço balançando sem ninguém nela, noivo ver o vestido da noiva antes da cerimônia, vestir a camisola do avesso.

Prestou tanta atenção no que poderia dar errado que perdeu o timing das boas venturas.

*páginas do livro Guide for the unlucky, do designer inglês Kyle Bean.

28 de fevereiro de 2011

Qual foi seu último sonho?



Tenho sonhado muito. Não dava muita importância aos meus sonhos, até que comecei a ler um livro, que não é sobre sonhos, mas que, desde que a leitura começou, vem disparando sonhos, dos mais simbólicos e dos mais coloridos.

O único defeito do meu cinema mental noturno é que a maioria das películas que são projetadas nas minhas noites se desmancham logo após a primeira mordida no pão do café da manhã. Preciso começar a tomar notas. Ou comprar um gravador de sonhos.

*ilustração "See you in my dreams", do estúdio Trademark, NY.

25 de fevereiro de 2011

24 de fevereiro de 2011

23 de fevereiro de 2011

Logout



Então. Pode parecer meio bizarro, mas na verdade não é. Tenho pensado numa coisa muito simples, muito real, mas sobre a qual costumamos evitar pensar. Já faz umas semanas, entre uma e outra atualização do blog, um twit aqui e ali, uma foto nova no Flickr e... enfim, a dúvida me assalta: o que vai acontecer com meu modesto patrimônio virtual quando eu morrer?

O que acontece? Os blogs ficam flutuando que nem lixo espacial em órbita da Terra? As contas online ficam num limbo de desatualizações até expirar depois de um "x" período? As fotos serão apagadas? Os perfis nas redes sociais ficam lá, como lápides de lousa onde os visitantes deixam suas homenagens (ou não)?

Deveria eu fazer um testamentozinho dos meus poucos pertences físicos e das senhas das minhas fazendas virtuais? Como proceder com a vida online post mortem?

Tenho essas dúvidas, mas, ao mesmo tempo, uma quase certeza: de que depois que eu fizer meu logout, não estarei lá muito preocupada com quem anda ou não visitando meu Flickr.

*página do livro All my friends are dead, de Avery Monsen e Jory John.

22 de fevereiro de 2011

Mire e veja



"Porque eu só preciso de pés livres, de mãos dadas, e de olhos bem abertos." • Guimarães Rosa

E como faz quando os olhos se cansam de ficarem bons e de tudo captar sem reclamar? Hoje é dia de cuidar dos meus olhos, que já têm tanto cuidado de mim...

21 de fevereiro de 2011

Quais são as suas cores?



Colours are what
keep me alive
colours are what
to hold in my head

colours are where my
my old meets new
colours are where my
my brain finds blue • Hot Chip "Colours"


*foto do estúdio da artista alemã Xenia Hausner, no Freunde von Freunden.

19 de fevereiro de 2011

Contaminações



O mais encantador da infância talvez seja essa capacidade de espalhar o sopro de vida nova. Casa onde tem uma criança é um espaço contaminado por objetos de tamanho pequeno demais para nós, um chão com vestígios de brincadeira e uma atmosfera atravessada por barulhos espontâneos. Alguém que caminhe com uma criança também estampará, em algum pedaço do corpo ou da alma que a infância passou por ali, como uma gripe boa, que traz o gosto daquilo que um dia fomos.

*"Spongebob" do fotógrafo francês Philippe Constantinesco.

16 de fevereiro de 2011

A vida é muito simples. Quer que eu desenhe?



*vi neste tumblr, dica de um mineiro simpático do Twitter.

15 de fevereiro de 2011

Não dê só um pouquinho



Well I know my death will not come
'Til I breathe all the air out my lungs
'Til my final tune is sung
That all is fleeting
Yeah, but all is good
And my love is my whole being
And I've shared what I could

But if you give a little love, you can get a little love of your own
Don't break his heart...

Well my heart is bigger than the earth
And though life is what gave it love first
Life is not all that it's worth
'Cause life is fleeting
Yeah, but I love you
And my love surrounds you like an ether
In everything that you do

But if you give a little love, you can get a little love of your own
Don't break his heart... • Noah and the Whale "Give a little love"