10 de fevereiro de 2003

Pirações = Arte ???

Na esperança de fechar as férias com um programão divertido e cultural, na última sexta-feira despenquei em São Paulo com itinerário bem definido: ver a exposição 2080 no MAM e também o acervo do MASP e mais o que estivesse acontecendo por lá.

O MASP já era conhecido, nada de grandes surpresas, alguns quadros que eu não tinha visto da última vez e outros que eu queria rever não estavam à mostra. Mas é sempre bom ir lá, tem coisas muito belas, agradáveis, e alguns retratos engraçados. Imagine que esse pessoal europeu do século XV, especialmente os da península Ibérica, eram parrudos e baixinhos. Mas é óbvio, que se o sujeito pertence a nobreza, não vai permitir e nem ficar contente que o pintor contratado congele sua pequena estatura para as risadas das gerações vindouras. Então alguns casos absurdos acontecem, "erros" grotescos de proporção, e não é dizer que o pintor era de meia-tigela. Velazquez está de prova.

No subsolo do MASP estava ocupado por uma exposição comemorativa dos 55 anos do museu. Entre pequenas gravuras, achados arqueológicos e livros raros, havia alguns rabiscos de Alexander Calder, famoso por seus móbiles. Mas digo rabiscos mesmo. Tinha até uma caricatura da Lina Bo Bardi (responsável pelo desenho arquitetônico do famoso prédio do museu) feita por Calder, dignamente emoldurada e soberanamente exposta, que era um desenhinho muito tosco, tosquinho mesmo. E o que acentuava o caráter tosco da "obra" era que o desenho foi feito numa folha de caderno escolar, com as linhas azuis de fundo e tudo. E está lá, exposto como obra de arte. Só porque é do Calder? Vou começar a tratar meus traços com mais respeito também...

Mas antes da dita arte acadêmica do MASP, fui ao ponto máximo semi-nonsense do dia, que foi na exposição do MAM. Como vocês poderão constatar a algumas publicações abaixo, a exposição 2080 é uma espécie de coletânea de várias obras de vários artistas que participaram de quatro mostras diferentes na década de 80. Pinturas, quase todas em telas enormes, com pinceladas vigorosas. Até aí, muito interessante. Agora, não sei se pequei em não ter pago para um educador do museu explicar as coisas para mim. Mas como eu já sabia do que se tratava, havia lido sobre o assunto na revista Bravo!, sabia do contexto dos eventos, achei que ia dar pra entender a maioria das coisas. Doce ilusão. Que conclusão você quer que eu tire de um quadro chamado Quatro pintinhos dourados, onde em meio a flores multicoloridas, num aquário quatro "pintinhos" (é isso mesmo) nadavam contentes com asas de borboletas? Freud diria que o cara tinha alguma espécie de fixação. Eu teria de concordar. E havia muitas outras piras mais. Mas não me senti tão estúpida. Estúpida teria me sentido se eu me comportasse como aqueles intelectuais de gola rolê, óculos de acrílico e mão sob o queixo que inventam explicações mirabolantes para tudo quanto é pira que chamam de arte: "Repare no tom ácido deste roxo. Representa a indagação epistemológica que o pintor propôe sobre a ontologia inerente ao ser enquanto depósito libidinal..."

Delírios, minha gente, delírios...

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